Casamento arranjado
Me ajeitei no sofá antes de responder. Nos segundos que demoraram até que as palavras saíssem da minha boca pensei no quanto, anos antes, a minha resposta seria diferente. No auge da minha arrogância juvenil eu afirmaria que, obviamente, o único casamento válido era aquele por amor e que o casamento arranjado era um absurdo, mas não foram essas as palavras que pronunciei naquela noite. Alguns diriam que eu saí pela tangente, ao responder que o casamento arranjado não era comum no meu país, que era difícil pra mim pensar nessa possibilidade, que no Brasil a gente dizia se casar por amor, mas que esse é só um jeito de contar a história, que eu acho que as pessoas se casam por conveniência, necessidade/pressão social, medo de ficarem sozinhas, vontade de ter filhos e muitas outras razões antes do amor, mas ainda assim, o casamento arranjado, como acontece em outros países, não era comum. Completei dizendo que não tenho uma grande vontade de me casar, portanto aquela pergunta, para a minha vida, não fazia muito sentido, mas para quem tem, eu não via grande diferença entre o casamento arranjado e o “por amor”, termo que a partir de agora será usado entre aspas, apenas pelas razões descritas acima. Disse ainda que, conhecendo de perto os fracassos dos casamentos “por amor”, eu andava até muito curiosa sobre o casamento arranjado e pedi para que ela me contasse mais.
Enquanto mordia um pedaço do seu momo, a comida típica nepalesa, Nishita perguntou-me se eu acreditava em casamento arranjado ou por amor, foi assim que o assunto começou e então ela me apresentou o que seria o corretor de imóveis dos solteiros e solteiras. No Nepal (e na Índia), onde os casamentos arranjados são muito comuns, existe a profissão dos casamenteiros, pessoas que são pagas para apresentarem interessados em se casar. Os primeiros movimentos são realizados por whats app e ali na sala em que estávamos vi algumas das opções enviadas, que vem quase que como um perfil de aplicativos de relacionamento. Se você nunca entrou em um, te explico: há fotos, uma breve descrição da pessoa, algumas preferências e no caso dos perfis enviados pelos casamenteiros, até renda mensal. Afinal, na Índia e no Nepal essa é uma informação muito relevante. (No Brasil também, visto que a maior parte dos casamentos se dá entre pessoas da mesma classe social, mas a gente finge um pouco que não, ao não pedir os extratos, mas analisa nas entrelinhas).
Na noite anterior eu havia jantado com um amigo e dois casais indianos. Na mesa de jantar do restaurante os casais se tratavam bem, riam animados, eram carinhosos e respeitosos, na minha visão ocidentalizada pareciam “feitos um para o outro” e eu juraria haver uma “linda” história de amor por trás daqueles gestos, mas no caminho de volta meu amigo me contou que ambos os casais tiveram seus casamentos arranjados, por intermédio de um site indiano especializado em matrimônio. As pessoas já acessam a plataforma com a intenção de casarem-se, portanto as bodas costumam ser comuns e bem rápidas quando o match acontece. Em diversos casos são as famílias que fazem e cuidam dos perfis de filhos e filhas quando estes já são considerados na idade de casar, vide, antes dos trinta anos. Diferentemente do passado, atualmente filhos e filhas são envolvidos no processo e na decisão, avaliando a pessoa sugerida pelos pais, conversando e até mesmo encontrando anteriormente, mas sempre em locais públicos e acompanhados de outros membros da família, mesmo que à distância. Se após esses processos ambos seguem concordando em casar-se o casamento acontece em, na média, três meses. Nishita estava na fase inicial do processo, pois há algumas semanas decidira que queria se casar e em um grupo com sua mãe e o corretor de solteiros avaliava suas opções e agora eu também palpitava no processo. Ela já havia conversado remotamente com alguns homens, que descartou, não me lembrou o motivo, e naquele momento tinha outros dois em vista e quando eu comecei a avaliar os atributos físicos ela logo me informou que não eram relevantes. Opinei então que ela deveria seguir para a próxima fase - da conversa - com ambos e ela prometeu me convidar pro casamento se a união acontecesse. Seis meses depois ela ainda procura um marido, mas tenho pra mim que não quer tanto assim se casar. Com 30 e poucos anos, vive e trabalha na Austrália, já um pouco longe das tradições hindus, confessou-me sentir-se sozinha com frequência, mas também não gostaria de voltar para o Nepal.
Quando estive em terras indianas, perguntar como cada casal se conhecera era praticamente desnecessário, já que a maioria teve a união arranjada. E diante do tempo de relação de cada um daqueles que conheci eu diria que o convívio me parecia bem melhor que a média dos casais brasileiros que conheço. Fiquei tentando formular hipóteses sobre as razões e acredito que pode ter a ver com expectativas: nos casamentos arranjados as pessoas entram com a intenção de fazer o amor nascer e a relação dar certo. São completos estranhos que vão morar na mesma casa e apesar da pompa com que as celebrações normalmente acontecem, há, obviamente, muitos receios no início, mas, pelo que ouvi, ambos parecem bem empenhados em fazer a relação dar certo e quando tudo dá certo ela vai ficando melhor ao longo do tempo.
Já os casamentos “por amor” muitas vezes se dão diante de uma crença ingênua de que a relação e os sentimentos não mudarão, mas quando confrontados com a realidade inevitável das mudanças os parceiros não sabem o que fazer e o resultado tem sido que em 2022, por exemplo, o número de divórcios no Brasil foi equivalente a 50% do número de casamentos daquele mesmo ano. Na Índia, onde 90% dos casamento é arranjado, as taxas de divórcio vem crescendo, mas ainda estão entre as menores do mundo, porém jogo esse dado sem a intenção de compara-las, pois, primeiro: não estou dizendo que o simples fato de as pessoas não se divorciarem garanta casamentos e relações saudáveis e segundo: na Índia ainda há uma forte dependência feminina e o divórcio é visto como um terrível acontecimento, principalmente para as mulheres, que quando divorciadas são extremamente julgadas socialmente e provavelmente não encontrariam um novo parceiro depois. O que tento mostrar é que o modelo do casamento “por amor” também não tem funcionado, seja qual for o motivo pelo qual as pessoas ainda estão se casando no Brasil, os casamentos tem acabado cada vez mais e mais rapidamente.
Na Índia a maioria das pessoas era gentil ao tentar não transparecer a surpresa e confusão por me ver solteira e assim como o respeito pelo minha não religião, pareciam respeitar as diferenças culturais que não me obrigavam a casar, como acontece ali. Uma das últimas pessoas que conheci foi uma indiana, que contou-me que já tentara encontrar um marido algumas vezes, mas não convenceu-se sobre ninguém com quem quisesse se casar. Ela julgava que os pais estavam lidando bem até então, sem muita pressão, mas que ela pressentia que tal comportamento mudaria radicalmente após ela completar trinta anos, o que se daria dali a poucos meses. Com um olhar de suplício interrogou-me sobre minha vida e minhas escolhas, ouvindo com atenção enquanto eu respondia mas também a lembrava das enormes diferenças culturais e contava que mesmo sendo de um país onde não há tamanho peso sobre o casamento, ainda sofro uma certa pressão, de quem acredita na família como bem essencial para a manutenção de valores que são importantes pra eles próprios, de quem projeta em mim seus medos e teme pela minha solidão futura, ou de quem, como bem escreveu a Marta Medeiros, está infeliz com sua própria vida e quer mais uma pessoa no barco da infelicidade. Na minha frente eu tinha aquela mulher, claramente sem a menor vontade de se casar, mas sentindo a obrigação familiar e social. Sugeri uma mudança de país, pra onde ela pudesse ser mais livre, ressaltei que às vezes fugir é a única opção, mas ela não estava pronta para tal, por achar que assim perderia a família de origem, pois os pais não mais falariam com ela. Seu plano era primeiro tentar uma mudança de cidade dentro da Índia e torcer para que pai e mãe se acostumassem com a ideia de que ela talvez não se casaria. Dentre os caras que ela conheceu um problema era constante: trabalhando como programadora seu salário era alto e a maioria das famílias pediu que ela parasse de trabalhar, pois uma mulher que trabalha já não é comum, ganhar mais que um homem, então, um verdadeiro absurdo. Ela negou-se e, para seu alívio, seu pai também.
Durante os meus 35 dias no país descobri não ter nada contra o casamento arranjado, pelo contrário, até achei uma excelente opção para quem quer de fato se casar e se a mesma cultura existisse no Brasil provavelmente pouparia aos interessados e interessadas meses perdidos em aplicativos e “matches” incompatíveis, ou seja, com pessoas que tem objetivos totalmente diferente dos seus. Prática, pouco romântica e crente de que a paixão é supervalorizada na nossa sociedade, se um dia eu quiser me casar provavelmente tentarei esse modelo e procurarei um corretor casamenteiro especializado em uniões 40+. Meu problema é com a obrigação, o fato de não haver boa alternativa para além do casamento, o fato daquela mulher dez anos mais jovem que eu, inteligente, comunicativa, independente financeiramente, cheia de projetos e vontade de ver o mundo, sentir-se encurralada por sua família e pela sociedade. Meu problema é o fato de suas opções de vida serem tão escassas.
É Tudo Culpa da Cultura
O podcast É tudo culpa da cultura é uma conversa entre o antropólogo Michel Alcoforado e convidadas antropólogas, que vão ao programa falar de suas pesquisas. Ele tem um epsódio todinho sobre os casamento arranjados na Índia. Se você se interessou pelo tema, vale a pena ouvir.
A Rosa Mais Vermelha Desabrocha
Me achou pouco romântica? Pois é, apesar de muitas vezes eu me achar um peixe fora d’água, pois vivo rodeada de gente emocionada (e aqui não há nenhuma crítica), aparentemente eu não sou a única. No livro A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, a autora conta porque muita gente perdeu a capacidade de apaixonar-se nos tempo modernos.




Antigamente aqui no Brasil os casamentos eram todos arranjados, e fucionava muito bem, até que a morte os separe. Lógico que tinham problemas como todos casais, mas enfretavam pela família. Vale a pena tentar.