intimidade desprotegida
seres íntimos pelo mundo
Eu dormia encolhida devido ao frio causado pelo ar condicionado, ligado numa temperatura inferior àquela agradável ao meu sono. Muito sonolenta para perceber onde estava e como resolver o problema, fiquei na cama, com os joelhos perto do meu coração e os braços debaixo do tronco, sem me mexer, até que senti o peso de um cobertor sobre mim. Parecia sonho, ou uma volta ao passado, quando meu pai costumava cobrir as filhas ao passar pelos nossos quartos, no interior de Minas Gerais. Não abri os olhos, estiquei as pernas e relaxei no calor que aquele gesto e o cobertor trouxeram. Já aquecida, lembrei onde dormia: num hostel em Corfu, na Grécia, há muitos quilômetros de distância do meu pai. Deve ter sido a Elisa, pensei.
Elisa era uma italiana com quem eu trocara algumas poucas e rápidas palavras na tarde anterior. Vi que em sua cama havia um cobertor, vi outros disponíveis no quarto, mas me esqueci de pegar um quando deitei. Na manhã seguinte ela confirmou: ao entrar no quarto e me ver encolhida, trouxe o calor. Um gesto aparentemente íntimo, totalmente simples. Antes de Elisa me cobrir eu acharia invasivo pensar em cobrir alguém num quarto de hostel. Depois, não.
Dividir casa, quarto, cama. Compartilhar o banheiro, sentar lado a lado na poltrona do ônibus, do avião, do trem. Tanto que ao dormir a cabeça pode tombar para o ombro da pessoa desconhecida. Subir na garupa de uma moto, abraçar quem pilota, pois assim é mais fácil manter o equilíbrio na condução. Ter o número do whats app, ligar sem avisar, ligar de vídeo, ser atendida. Mandar áudios longos, ouvir na velocidade um, não ter nenhuma dúvida de que a mensagem será respondida. Pedir ajuda, chorar, rir. Gargalhar, a sua gargalhada mais estranha, não ter vergonha dos sons que ela emite. Nem dos sons da sua barriga, ou do ronco enquanto dorme. Escovar dentes ao mesmo tempo, cuspir na mesma pia, passar fio dental enquanto conversa, compartilhar roupas, desodorante, sabonetes, lâmina de depilar. Não trancar a porta do banheiro, entrar enquanto a outra está fazendo número 2, ter a audácia de reclamar do cheiro. Saber o endereço, conhecer a casa, os pais, a família. Ouvir histórias da infância, os maiores medos de adulta. Deitar no colo, abraçar, abraçar demorado, dar, receber uma massagem. Despir-se, de roupas e segredos.
A minha noção de intimidade, que já não era muito comum, alterou-se consideravelmente após quatro anos na estrada. Compartilhei vários desses momentos “íntimos” com pessoas cujos nomes nem sei, vozes não me lembro, rostos nunca mais verei. Se digitar a palavra intimidade a inteligência artifical informará que há quatro componentes essenciais: vulnerabilidade, respeito/cuidado mútuo, conforto/segurança perto daquela pessoa e profundo conhecimento sobre ela. Com exceção do último item, que requer tempo, todos os outros podem se dar com estranhos, mas por algum motivo, nos guardamos, reservamos nossa “intimidade" para poucos. Desconfio que mais por regras culturais que por necessidade ou vontade.
Pessoas de nacionalidade marroquina e sexo oposto não podem compartilhar um quarto de hotel se não forem casadas uma com a outra. Está na lei. Elas podem ser presas por isso e o estabelecimento teria problemas. No Marrocos o conceito de intimidade passa também pela lei. Turistas buscam informações antes de visitar o país: “vou viajar para o Marrocos de férias, posso dividir quarto com minha namorada?” A resposta é sim, o país adaptou-se aos costumes estrangeiros, desde de que nenhuma parte do casal seja marroquina, podem sim dividir o quarto sem apresentarem certidão de casamento. Junto com essa resposta é comum surgir uma explicação sobre PDA (Public displays of affection - demonstrações públicas de afeto), informando que elas são consideradas inapropriadas por ali e casais devem ser discretos quanto a essas demonstrações. Nada de beijos, sentar no colo, andar abraçados, reservem esse contato para ambientes privados. Exceto entre homens. É comum ver homens de mãos dadas e se acariciando, sem nenhuma conotação sexual. Se na cultura brasileira meninos aprendem desde cedo que devem manter-se longe fisicamente dos amigos ou de qualquer outro homem e a maioria cresce na bolha da masculinida frágil, onde qualquer demonstração de afeto é bizarramente vinculada a uma possível orientação sexual, no Marrocos eles se acariciam no rosto, beijam as bochecas, recebem cafuné em público.
Para as mulheres é reservado o Hamman, o banho árabe, criado há séculos. Homens também podem frequenta-lo, mas em horários ou casas diferentes. A primeira amiga que me falou sobre o Hamman público o descreveu como selvagem. Não havia julgamento no adjetivo escolhido, era sua forma de descrever algo com poucas regras. Mulheres nuas, num ambiente quente, como uma sauna, esfoliando os corpos umas das outras, conversando ininterruptamente, com a pele e cabelos à mostra (algo totalmente incomum pelas ruas do Marrocos). Apesar de não entender o idioma, percebeu que ali era o espaço privado delas, embora público. Íntimo, mesmo sem um papel formalizando a relação. Não necessariamente amigas, mas com uma existência análoga: nascerem mulheres no Marrocos e terem no banho um ambiente reservado apenas para elas. Existiam ali com naturalidade, peles dobradas, pêlos à vista, peitos caídos, nenhuma extremamente magra, adultas, com corpos reais, mulheres, doando e recebendo, cuidado e tempo. O toque na pele começa intenso, após molhar o meu corpo com água morna e espalhar um sabão preto, a mulher utilizou uma luva áspera para esfregar minha pele e retirar tudo o que estava morto. Deitada, de olhos fechados, sentia o meu corpo sendo arranhado, ficando vermelho, como quando cortamos em algo e fica um vergão. Ao abrir os olhos eu ainda podia ver a pele morta, como pequenos grãos, ou grossos fiapos morenos espalhados por todo o meu corpo. A mulher marroquina que me esfoliava estava na minha frente, vestindo apenas uma bermuda, seu corpo também à mostra. Vi seu cabelo negro, a pele clara, nenhuma tonalidade diferente como a minha, que tem duas cores, diferenciando a parte que é frequentemente exposta ao sol daquela protegida pelo biquini. A pele daquela mulher nunca foi exposta ao sol, seu cabelo também não. São expostos ao calor do Hammam. Com mímicas me orientava a deitar de barriga pra cima, virar de bruços, sentar de frente, de costas. Me esfoliou, ensaboou, enxaguou, lavou meus cabelos. Sem chuveiro, sem água correndo ininterruptamente, as sensações eram mais vivas, latentes, pude perceber o líquido escorrendo pelo meu corpo, a espuma, as mãos, o ar quente da sala, a pedra onde eu estava deitada. Ela passou os dedos pelas minhas pálpebras, atrás das minhas pequenas orelhas, na nuca, jogou baldes de água morna sobre o meu corpo, lavou partes que eu nunca alcancei. Nunca me senti tão limpa. Desejei termos esse hábito no Brasil: dar banho umas nas outras, como fazemos com crianças. Muito íntimo? Talvez, mas não deveria. São apenas corpos. Corpos que dormem, acordam, comem, trabalham, amam, cuidam, sofrem.
Suspeito que preservamos a intimidade principalmente por proteção. Quem não é íntimo não pode nos machucar facilmente, por isso reservamos essa posibilidade a poucas pessoas. Por vergonha, mas a vergonha só vai embora com o uso e a quem ela serve, afinal? Por hábito, porque alguém nos disse a vida toda o que podia e o que não podia ser feito, o que deveria ser reservado para poucas relações. Por medo do desconhecido, por higiene, porque alguns contatos íntimos podem trasmitir doenças - o único motivo realmente válido para mim. No geral o conceito de intimidade foi construído socialmente e pensamos pouco sobre ele. A amiga que me falou sobre o Hamman é uma pessoa do toque. Ela conversa tocando, não importa se tenha crescido contigo ou acabado de te conhecer, é como ela se expressa. Preocupada com a diferença cultural, que tanto separa homens de mulheres no Marrocos, no primeiro dia que a vi tocando de leve o peito de um marroquino enquanto conversava, a alertei, para ouvir que ela era assim e pronto. Não era a primeira vez que ela ouvia esse tipo de repreensão (da qual me arrependi). No Marrocos ou na Alemanhã pessoas tem dificuldade com o seu jeito de se expressar. Já eu, não me sinto confortável tocando homens que não conheço. O toque é para mim algo permitido entre pessoas que já são amigas ou um convite para algo mais, uma demonstração de interesse. Está aí o meu limite da intimidade física. Ao mesmo tempo, quase contraditoriamente, não me sinto mais íntima de alguém apenas porque tivemos contato físico, depende da situação, do contexto. Via de regra acredito que trocar confidências é mais íntimo que transar, que o sexo pode ser simplesmente um desejo carnal, desde que cosentido por ambas as partes. Mas essa não é uma opinião comum, na nossa sociedade, muita gente - principalmente mulheres, ainda percebe o sexo como a maior expressão de intimidade. Minha amiga, que é muito mais aberta ao toque inicial que eu, enxerga o sexo assim: uma profunda e íntima troca de energia. Exemplos como esses indicam que intimidade, além de cultural, é um conceito singular, que deveria ser construído a partir de experiências individuais e não por convenções sociais.
Uma coisa é certa: intimidade vai muito além do sexo e da nudez e pergunto-me se o custo-benefício de proteger todos os aspectos da nossa intimidade vale a pena, se faz sentido economizar, permitir-se ser humana apenas ao lado de poucas pessoas. Tendo a achar que não. Pessoas estão cada vez mais sozinhas, literamente morrendo de solidão e preservar com afinco qualquer vestigio de intimidade (ou seria humanidade?) pode estar contribuindo para essa doença. Protegemos algo como se fosse inédito, só nosso, mas somos muito similares, únicas no interior, iguais na forma, nas necessidades e dores humanas. Nos protegemos sem perceber que o ato, no lugar de nos salvar, nos afasta. A solidão das pessoas deixou de ocorrer apenas nas capitais. Alteramos as convenções sociais dos nossos antepassados indígenas, que viviam em comunidades e não acredito que estejamos melhores. Mais vestidos e mais solitários, com certeza. Descubro a resposta para a minha pergunta olhando para os últimos meses da minha vida, nos quais vivi um tour europeu com o intuito de rever pessoas que conheci e me conectei durante meus primeiros anos viajantes. Atravessar um oceano por encontros, lembrar das suas histórias, escolher e ser escolhida, mesmo que não tenhamos nem a nacionalidade em comum. Reencontros, é o que reservo para as minhas pessoas especiais. Dividiremos mais momentos íntimos, ainda que meus momentos íntimos não sejam apenas para elas, essas tem direito a recorrência.
Deveria ser mais fácil esse movimento de dedicar tempo, mas nos fizeram colocar esse ato no fim da lista de prioridades. Mais importante é focar a vida em oito horas de trabalho (mínimo) e escolher pouquíssimas relações. Um núcleo familiar estreito, na minha bolha formado por um casal e dois filhos. A responsabilidade pelo afeto necessário ao ser humano está restrita a poucas pessoas do círculo social. Além de ser uma estratégia ruim, de colocar todos os ovos na mesma cesta (filhos crescem e partem, a sua pessoa pode morrer ou decidir ir embora a qualquer momento), acho também um desperdício antropológico não conhecer e relacionar-se com mais gente, não se doar nem receber de seres distintos. Sei que expandir o círculo social e desproteger sua intimidade exige um esforço imenso para determinados perfis. Não é preciso virar um livro aberto como eu, contando todos os seus traumas em cinco minutos de conversa, mas dá para afrouxar os limites, avaliar o que é seu, o que é social. Limites rígidos podem ter consequências desastrosas: pessoas solitárias, depressivas, doentes, sem rede de apoio, protegendo-se com tanto afinco que deixam de viver. Tem gente que constrói intimidade com poucas pedras, uma marmita dividida, disposição para perguntas profundas, um quarto em comum, onde é preciso perguntar se pode apagar a luz, há barulho pela manhã e situações incômodas. Tem gente que acorda a noite e pergunta se pode dividir a cama comigo porque não consegue dormir na cama ao lado e eu, sonolenta, chego pro canto da cama de solteira. Dormimos apertadas, com uma cama livre ao lado, mas dormimos. Tem gente que reorganiza a rotina, alegra-se em abrir suas casas, marca o próximo encontro pra daqui um ano, em qualquer lugar do mundo. Corre riscos, cobre alguém na noite pra no outro dia reconhecer que era seu tipo de gente: gente que não economiza intimidade e, principalmente, não vive só.
Um pouco mais das três semanas no Marrocos:
1. Para mais um relato sobre o Hamman, leia aqui. (em caso de necessidade coloque o tradutor pra trabalhar).
2. O deserto é um mistério. Meu corpo grita no primeiro momento em que piso nessas regiões áridas. 19%, era a umidade do ar durante meus dias no Saara. Minha pele coça, meu nariz sangra, a cabeça lateja, fico letárgica, me falta água e energia. Acho incrível o fato de pessoas viverem ali a vida toda, provavelmente a teoria da evolução foi implacável e essas etnias possuem genes melhores adaptados que os meus a ambientes tão secos. Ainda assim a paisagem é estupenda e sempre que possível sujeitarei meu corpo a alguns dias de exaustão desértica.
3. Voltei apaixonada pela música Gnawa e com muita vontade de ver mais festivais na África e conhecer outras partes dessa cultura musical tão rica. Abaixo uma playlist e aqui um vídeo que não consegui adicionar no Substack.





Mais uma vez um artigo muito interessante e bem escrito 🙂
Exerço a intimidade da nossa relação cobrando vc por mais textos aqui hahaha. E como vale a pena ❣️
(Eu tive a experiência do hammam na Turquia e foi do outro mundo. E olha só: me lembro que encarei com a naturalidade de quem vai passear numa feira ou num museu rs. Talvez por serem mulheres banhando outras mulheres, eu me senti confortável para me abrir à tamanha intimidade. E acredito que intimidade nasce muito desse lugar, da confiança).